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O diretor de teatro Júnior Brassalotti e a atriz Ana Cristina Maragliano, falam sobre a sua maior paixão e o seu maior drama: o teatro amador, cuja experiência quase sempre coloca os dois artistas à beira de um ataque de nervos. Mas a tensão é recompensada logo a seguir pela presença no palco — o alívio da arte, depois da dor. Brassalotti é do grupo Artefato e Ana Cristina da Companhia Teatral Pacatatu e integrante também do grupo DNA.
Texto: Ana Paula Miranda e Selma Costa (matéria feita em 2005 para meu trabalho de conclusão de curso)
Fotos: Arquivo pessoal de Ana Maragliano
Visão da arte
Júnior Brassalotti — “Faço teatro amador há 11 anos, como ator, diretor, maquiador e dançarino. Minha escolha em relação ao teatro foi motivada por uma certa angústia pessoal e com as pessoas à minha volta: O mundo em geral está muito triste. Portanto, a arte é uma forma de colocar o que pensamos sobre o ser humano e compartilhar isso com outras pessoas. Descobrir quem você é por meio de grandes autores, por meio de uma ‘mentira’, de uma ilusão, que é o teatro. Construímos personagens o tempo todo, mas na verdade procuramos o nosso verdadeiro eu”. 
Ana Maragliano — "Tinha curiosidade de conhecer essa arte que é magnífica. Os amigos que faziam teatro me chamaram e comecei a me interessar mais e depois disso já são três anos dedicados ao teatro".
Viver de teatro
Brassalotti — “Um artista amador da Baixada Santista não vive só de teatro. Viver só disso hoje em dia é muito complicado. Eu vivo só das coisas que faço com relação à arte, por exemplo: faço animação de festas pra adulto. Mas foi por meio do teatro que as pessoas ficaram me conhecendo”.
Ana Maragliano — “Isso depende do próprio artista buscar recursos para produzir seus projetos. Tenho um exemplo bem próximo que é do diretor da companhia da qual faço parte. Ele montou esse projeto ao longo de 18 anos. Não contou com patrocínio e nem com o poder público. É um projeto totalmente particular”.
Imprensa
Brassalotti — “Tem muita produção cultural na Baixada Santista que não chegam a conhecimento do público. Temos coisas lindas sendo feitas aqui. Pessoas em pequenos ateliês fazendo escultura e pintura com técnicas espantosas. O trabalho de dança de Santos é de ponta. A falta de divulgação e cobertura da imprensa faz com que muitos projetos não saiam do papel”.
Ana Maragliano — “Minha casa já foi um espaço de arte. Colocávamos cerca de 50 cadeiras, cobríamos com lona, fazíamos iluminação. Isso a um preço popular de R$ 3,00. Eu fazia divulgação no bairro e as sessões eram lotadas. Nunca houve uma nota na mídia sobre a peça".
Brassalotti e Ana Maragliano — “A cobertura da imprensa deveria ser mais abrangente. É preciso saber vender o evento, colocar de uma maneira mais popular, às vezes tem eventos que são eruditos e a mídia não sabe como colocar isso pra população e prefere não divulgar. Fazem a divulgação dos grandes que vêm de fora. Para os grupos daqui, só dão notas pequenas”.
Ficha Técnica
Junior Brassalotti — Faz parte do grupo Confraria dos Bobos e Cia Pavaneli de Teatro de rua e circo e do grupo Arte e Cia de Danças. Está ensaiando o espetáculo de cabaré Zefi mal pagas.
Ana Maragliano — Atualmente encena para escolas peças infantis como Água Viva (fantoches), Menino Maluquinho, Quatro Estações, Viva Verde, entre outras pela Companhia Teatral Pacatatu . Também está ensaiando com o grupo DNA a peça adulta Como se fazia um deputado.
Público
Brassalotti — “O que falta para o público santista procurar mais o teatro amador é a conscientização, pois talento existe. Mas é difícil tirar as pessoas da inércia. Se alguém disser que em Santos não acontece nada ligado à cultura, é mentira. É só procurar que achamos muitas coisas. Todo final de semana tem espetáculos teatrais de dança, de música etc. O que falta é as pessoas procurarem um pouco mais a cultura. Muita gente não vai ao teatro por medo de não compreender a peça. Mas não é para entender racionalmente: a arte passa por um outro campo. A Clarice Lispector falava isso muito bem. Ela dizia que ‘viver ultrapassa todo o entender’. Então, vai lá no teatro e aproveita, pois alguma coisa você vai absorver".
Ana Maragliano — “Nem todo mundo em Santos tem dinheiro para ir regularmente ao teatro e isso faz com que as pessoas não adquiram esse hábito. Se os eventos fossem gratuitos como foi, por exemplo, o Curta Santos, que teve as sessões lotadas, o público apareceria com certeza”.
Preço do ingresso
Brassalotti — “O público santista prefere ir a São Paulo para ver espetáculos e pagar ingressos caros. Paga R$ 30 para ver um espetáculo do ator da Globo do momento. O ingresso de teatro amador custa em torno de R$ 10. Se comparado ao preço de uma sessão no Cinemark, que chega a custar até R$ 12, o ingresso não é caro ” 
Ana Maragliano — “Apesar de não ser muito caro, o ingresso teria que ser mais popular. Mas para isso precisaríamos de patrocínio para bancar os custos. Assim os preços poderiam ser mais acessíveis e teríamos mais frequentadores”.
Federação Santista
Brassalotti — “Atualmente a Federação Santista de Teatro Amador está passando por uma reformulação e não tem sede nem presidente, é formada por uma comissão de seis pessoas. A federação já foi mais atuante, mas está passando por mudanças. O objetivo é fortalecer a classe, organizar eventos, unir mais os grupos e representar a classe teatral junto ao poder público. O movimento de teatro em Santos é o movimento de cultura mais unido da cidade”.
Ana Maragliano — Muita gente se desligou e agora não tem nem presidente. Havia uma idéia de criar uma cooperativa, mas o projeto não vingou. Pra se ter uma idéia não sabemos nem quantos grupos temos na região. Acredita-se que seja em torno de 52 grupos. Só há reuniões para organizar o Festa. Fora isso, não há reuniões, movimentos, união".
Poder Público
Brassalotti — “Não tenho do que reclamar da Secretaria de Cultura de Santos, pois sempre que pedi ajuda fui atendido. A Prefeitura colabora cedendo transporte para a equipe dos espetáculos, cedendo espaço para ensaiar. As pessoas reclamam sem ter conhecimento, tudo é uma questão de diálogo. Meu grupo já viajou para apresentar espetáculos em Campinas, Caraguatatuba, Sumaré, São Paulo, Cubatão, Jales e Paraná. Apresentamos espetáculos nessas cidades, graças ao apoio da Secult”.
Ana Maragliano — "Eles atuam de forma positiva, mas nem tanto como a gente gostaria. A Secretaria de Cultura e as grandes empresas deveriam incentivar mais os amadores. Não podemos confiar só no poder público. Acredito que os grupos também têm que ir atrás das parcerias".
criado por Ana Paula
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